9 de julho “Revolução Constitucionalista de 32

Passagens da história vivida pelos bravos paulistas contada, em artigos com curiosidades e importantes detalhes, pelo Tenente Coronel PM Sérgio Marques.
Artigo 3º – 1932: TÚNEL DA MANTIQUEIRA, PIVÔ DO SETOR NORTE. OS BATALHÕES DA FORÇA PÚBLICA, EXÉRCITO E VOLUNTÁRIOS TOMARAM POSIÇÃO.

Com a eclosão do “9 de Julho de 1932”, São Paulo e parte do Mato Grosso aguardavam a ajuda bélica de dois Estados, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com o objetivo de, irmanados, marcharem à Capital Federal, Rio de Janeiro, para derrubarem o Governo Provisório de Vargas. Astutamente, Getúlio Vargas prendera os possíveis apoiadores nas respectivas Unidades Federativas. A possível ajuda nunca chegou, mas os disparos vieram, contra São Paulo… Isolados e cercados, os Paulistas, defensivamente, acabaram se “entrincheirando” em cinco Setores:

  1. Norte (Vale do Paraíba), fronteira entre SP/RJ e SP/MG: cidades de Cruzeiro (Túnel/Batedor), , Pinheiros- hoje, Lavrinhas, Areias (Morro Frio), Silveiras, Queluz (Vila Queimada/Morro Verde/Engenheiro Bianor/Engenheiro Passos), São José do Barreiro, Cunha, Lorena, Piquete, Aparecida, Guaratinguetá (Engenheiro Neiva), Serra da Bocaina etc. Cachoeira (hoje, Cachoeira Paulista) foi escolhida como ponto de concentração da Frente Norte, além de sede do Quartel General e o Estado Maior da 2ª Divisão de Infantaria em Operações- 2ª D.I.O, sob ordens diretas dos coronéis Euclydes Figueiredo e Palimércio Rezende.
  2. Leste, fronteira entre SP e MG: Itapira (Eleutério/Barão de Ataliba/Morro do Gravi), Mogi-Mirim, Serra Negra, Socorro, Lindóia, Amparo, Espírito Santo do Pinhal, Campinas, Mococa, Ribeirão Preto, Franca, São José do Rio Pardo, Presidente Prudente, Guaxupé/Ouro Preto/Pouso Alegre- MG etc.
  3. Sul, fronteira com o Paraná: Itararé, Itaporanga, Capão Bonito, Buri, Itapetinga, Faxina-hoje, Itapeva-, Guapiara, Piraju, Apiaí, Fartura, Xiririca- hoje, Eldorado-, Salto Grande, Ourinhos, Barrancas do Rio Paranapanema,
  4. Oeste (sul de Matogrosso): Campo Grande, Porto Murtinho, Porto Taboado, Ponta Porã, Bela Vista; e
  5. Litoral: em especial, Santos, como o seu Porto, e Ubatuba.

O Túnel da Mantiqueira

O Túnel da Mantiqueira, na fronteira entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais, entre as cidades de Cruzeiro – SP e Passa Quatro – MG, no “front” de batalha Setor Norte, ficou conhecido como “grande sorvedouro de vidas” dos valentes Soldados, que ali defenderam e tombaram pela Reconstitucionalização do país, Frente que teve o maior número de baixas dos Setores de combate. As principais batalhas se deram sobre e ao redor da construção, nas várias Montanhas da Mantiqueira.
O Túnel, com aproximadamente 1.000 metros de extensão, tem as seguintes características: escuridão total e baixa temperatura. Em suas laterais, corre um pequeno curso de água, que em 1932, dizem, segundo a História Oral de época, ficou vermelho do sangue derramado pelos lutadores do Setor…
A cidade de Cruzeiro- SP, próximo do Túnel da Mantiqueira, era o eixo de comunicação do Setor Norte. De posição de valor estratégico formidável, chave do serviço de reabastecimento do Setor, caso fosse o Túnel perdido, comprometido ficaria todo o Setor (desde o “Batedor”, flanco esquerdo da construção, até extensa linha, na extrema direita do Túnel, abrangida pela cidade de Areias-SP até Morro Frio). O Setor ainda incluía os Picos da Gomeira, Cristal, Itaguaré e Gomeirinha, verdadeira linha de resistência Constitucionalista.
Defenderam o famoso Túnel das tropas Ditatoriais os bravos componentes da Força Pública Paulista (atual PMESP), do valente corpo de voluntários constitucionalistas e dos heroicos soldados do Exército Nacional (aquartelamentos no Estado de São Paulo e sul do Mato Grosso), dos seguintes Destacamentos:

Da Força Pública:

1) O 2º Batalhão de Caçadores Paulistas (2º BCP), da Força Pública Paulista (hoje PMESP), atual 2º BPM/M (“Dois de Ouro”), é atualmente responsável pelo policiamento ostensivo do Bairro da Penha e adjacências, na zona leste da Capital.
O 2º BCP deixou a Capital na aurora da Revolução constitucionalista, dia 10 de julho de 1932, primeiro dia efetivo de operação de guerra, após o estouro da Revolução, em 09 de julho de 1932, rumando para o Setor Norte. Suas companhias ocuparam, entre os dias 12 e 13 do mesmo mês, a difícil posição no Túnel, verdadeiro absorvedouro de vidas.
O 2º BCP foi a Unidade que mais contribui para a defesa do local, amontoando gloriosamente os corpos dos homens valentes que a compunham. Era comandado pelo tenente-coronel Herculano de Carvalho e Silva, sendo hoje o Batalhão homenageado com seu nome. Em 23 de julho de 1932 fora nomeado Comandante Geral da Força Pública, promovido ao posto de coronel, substituindo o Comandante anterior, o coronel Júlio Marcondes Salgado. Na mesma data, durante teste de uma nova bombarda (morteiro), local onde hoje se localiza o terminal do Aeroporto de Congonhas, na Capital Paulista, ocorreu um acidente. Com a explosão do morteiro, o coronel Marcondes salgado foi atingido mortalmente. Na mesma explosão também pereceu o inventor do morteiro, Capitão Marcelino da Fonseca, da Força Pública. Ambos foram promovidos “post mortem”, respectivamente, ao posto de general e major da Força.
Com a saída do coronel Herculano, comandou o 2º Batalhão da Força o tenente-coronel Octaviano Gonçalves da Silveira.
Em dezembro de 2007 o “2º BPM/M”, em homenagem àqueles que lutaram e morreram no Túnel da Mantiqueira, inaugurou uma placa em seu interior, com os seguintes dizeres:
“Aos heróis do Túnel – Setenta e cinco anos após a arrancada Constitucionalista de 1932, os Oficiais e Praças do – 2 de Ouro-, Unidade responsável pela guarda desse Túnel, retornam reverentes ao local sagrado onde o sangue generoso de seus heróis tingiu esse solo, na certeza de que os compromissos de dignidade, liberdade e democracia continuam a nortear a vida dos policiais militares dessa geração. Viva São Paulo forte em um Brasil unido. – São Paulo, dezembro de 2007”.
Tombaram naqueles dias 21 guerreiros de seu efetivo.

2) 4º Batalhão de Caçadores Paulistas (4º BCP), atual 4º BPM/I, responsável pelo policiamento ostensivo na cidade de Bauru e cidades nas imediações. Na alvorada da Revolução, 12 de julho de 192, a Unidade foi direcionada ao Setor Norte (Túnel e fronteira com o Estado do Rio de Janeiro). Em 16 de julho seus efetivos já se encontravam no Túnel. Também parte de seu efetivo foi encaminhado para o Setor Sul, fronteira com o Paraná, e Leste, na borda com Minas Gerais. O Batalhão era comandado pelo major Genésio de Castro e Silva. No Túnel, 03 de seus bravos morreram.

3) 5º Batalhão de Caçadores Paulistas (5º BCP), atual 5º BPM/I, responsável pelo policiamento ostensivo na cidade de Taubaté, Pindamonhangaba e Campos do Jordão, no Vale do Paraíba. Durante a Revolução, partiu o Batalhão em 12 de julho de 1932 para tomar posição no Túnel. O Batalhão era comandado pelo tenente-coronel Antônio Inojosa, nascido em Pernambuco. O tenente-coronel Inojosa tinha um sobrinho, também pernambucano, o Sargento Manuel Faria Inojosa, que, antes da Revolução, era aluno do Curso Especial da Força Pública. Incorporado ao Exército Constitucionalista, no batalhão extranumerário do 4° Batalhão de Caçadores Paulista, morreu em combate no dia 29 de agosto de 1932, na Frente Leste, no setor de Itapira-SP, fronteira com Minas Gerais.
O 5º Batalhão posteriormente recebeu o nome em homenagem ao Comandante Geral da Força Pública, quando do estouro do Movimento de 1932, o coronel Júlio Marcondes Salgado. No Túnel tombaram 04 de seus componentes; e

4) 2º Cia do Corpo de Bombeiros da Força Pública Paulista (atual Corpo de Bombeiros da PMESP). A 2ª Cia seguiu para o Setor Norte em 28 de julho para tomar posição na encosta invicta do Túnel. A 2ª Cia era comandada pelo capitão Joaquim Ferreira de Souza. O Corpo de Bombeiros pelo tenente-coronel Álvaro Martins. Os integrantes dos Bombeiros, nos tempos de paz, acostumados aos perigos das chamas, pois não temiam jogar a vida na extinção dos incêndios, no Setor do Túnel combateram um fogo diferente daquele contra o qual lutavam diariamente nas cidades. Lá não havia o assovio das sirenes, mas somente o silvo das granadas… As 1º e 3º Cias combateram nos Setores Sul e Leste durante a Guerra Civil. Dos 12 Bombeiros tombados durante a Revolução, 02 deles foram no Setor do Túnel;

De Voluntários:

5) “Batalhão Bahia”, composto por voluntários oriundos da região de Bragança Paulista- SP. Rapidamente formado, seu efetivo partiu para o Setor do Túnel, a “fábrica de heróis”, em 16 de julho de 1932, uma semana após o início do epopeico Movimento Constitucionalista. Outros efetivos complementariam o Batalhão, partindo nos dias subsequentes. 12 voluntários morreram no Túnel; e

6) “Batalhão 7 de Setembro”, composto por voluntários, formado na Capital Paulista, com sede na Avenida Tiradentes. Também rapidamente estruturado, partiu para o campo de luta, primeiramente, para Taubaté-SP, em 17 de julho de 1932. Seu “batismo de fogo” foi na cidade mineira de Guaxupé, no Setor Leste da Campanha. Sendo um dos primeiros Batalhões Patrióticos, formados por civis, ocuparam posições consideradas mais necessárias para manter a todo custo. Em decorrência, novo deslocamento, agora para o Setor Norte, para o temível Setor do Túnel, sob o comando do capitão Ayres Bento de Oliveira. 05 voluntários morreram no Túnel.

Do Exército Nacional:

7) 3º Batalhão (“Três de Ouro”), do 5º Regimento de Infantaria- 5º RI. As Companhias do “Três de Ouro” partiram entre 10 e 12 julho de 1932 para o Setor Norte, destacados para uma das difíceis e perigosas posições do Túnel. O Batalhão era comandado na ocasião pelo coronel Antônio Alexandrino Gaya. Muitos de seus combatentes foram incorporados em Campinas-SP. Hoje a Unidade recebe a denominação de 5º BIL- Batalhão de Infantaria Leve, “Batalhão Itororó”, de Lorena (SP), herdeira das instalações e das tradições do 5º RI-Regimento de Infantaria.
No dia 15 de agosto passado, a Unidade inaugurou um monumento em homenagem aos tombados durante a Revolução Constitucionalista. Um deles foi o capitão Manuel de Freitas Novaes Neto, o capitão Neco, natural de Cruzeiro-SP, morto em combate no dia 5 de agosto de 1932. Pereceram 16 militares do Batalhão no Túnel;

8) 1° Batalhão, do 4° Regimento de Infantaria- 4º RI. Unidade ainda hoje aquartelada em Quitaúna, bairro de Osasco- SP. Dia 11 de julho de 1932 o Regimento partiu para o Setor Norte de combate. Um militar tombou no Túnel. Outros vários combatentes do Regimento faleceram no subsetor fronteiriço ao Estado do Rio de Janeiro, irmanado com o 6º Regimento de Infantaria-6º RI, de Caçapava-SP; e

9) 2º Grupo de Artilharia Pesada-2º GAP. Aquartelado em Quitaúna, bairro de Osasco- SP, partiram para o “front”, em 11 de julho de 1932, com três baterias de artilharia, sob o comando do capitão artilheiro Arcy da Rocha Nóbrega. Inicialmente, ocuparam o quartel do 6º Regimento de Infantaria- 6º RI, em Caçapava, que há pouco partira para o Setor Norte, no subsetor de Vila Queimada, fronteiriça com o Estado do Rio de Janeiro (que abrangia o Morro Frio, pouco além de Areias-SP, Silveiras- SP, Pinheiros- hoje, Lavrinhas-SP- e Queluz- SP). Apesar da limitação de armamentos e granadas, comparada à fartura existente no Exército Ditatorial, causaram muitos danos para as tropas getulistas.

Mesmo com absoluta superioridade numérica e bélica dos Ditatoriais, o Exército Constitucionalista resistiu até 12 de setembro de 1932 no Túnel, quando houve um retraimento geral dos Batalhões para o estabelecimento de nova linha de resistência, na altura de Cachoeira- SP. Posteriormente, novo retraimento, agora para a linha final, à frente de Engenheiro Neiva, último reduto do Exército Constitucionalista no Setor Norte, em Aparecida, cidade Paulista do Vale do Paraíba. Lá ocorreram as últimas batalhas no Setor até o Armistício, assinado em Cruzeiro- SP, em 02 de outubro de 1932, finalizando a Guerra Civil.
Eles não morreram em vão…

Sérgio Marques é tenente-coronel PMESP (veterano). Graduado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pela APMBB, em 1996. Graduado em Direito pela UNIBAN. Pós-graduado em Política e Relações Internacionais pela FESP/SP. Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo CAES, da PMESP, em 2013. Licenciado em História pela Faculdade Sumaré. CEPE- Ciclo de Estudos de Política e Estratégia pela ADESG – Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra.

FONTE:

Cruzes Paulistas, os que tombaram, em 1932, pela glória de servir São Paulo. Disponível em: http://mh.itapetininga.com.br/1932/cruzespaulistas85.pdf . Acesso em 07 jul. 2020;
Batalhão Itororó homenageia herói da Revolução de 32 no Simpósio de História Militar do Vale do Paraíba. Disponível em: http://www.2de.eb.mil.br/…/942-simposio-de-historia-militar… . Acesso em 07 jul. 2020;
Jornal Correio de São Paulo, 02 de julho de 1932, p. 2; 20 de julho de 1932, capa;
Jornal Diário de São Paulo, 20 de julho de 1932, capa;
Jornal Diário Nacional, 21 de julho de 1932, capa; e
Revista A Cigarra, 15 de agosto de 1932, p. 28.

Na região de Cruzeiro- SP, em uma das trincheiras constitucionalistas.

Soldados Constitucionalistas, em guarda, na entrada do Túnel da Mantiqueira, pela passagem (entrada) mineira, com seus fuzis.

Outra trincheira guarnecida pelos Soldados Constitucionalistas. Observem a cobertura. Enquanto não chegaram os “capacetes de aço”, apropriados para a guerra de trincheira, as tropas utilizavam o chamado “capacete de pano” ou “cata ovo”, que nenhuma proteção oferecia na cabeça.

Forças Constitucionalistas no interior do Túnel.

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